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Responsabilidades Sociais dos Psiclogos
Esse TEMA desafia-nos no s por causa da sua importncia para ns como cientistas sociais mas tambm como seres 
humanos vivendo num perodo precrio do nosso mundo. Nos dias em que estive trabalhando no ensaio que serviu de base 
para este captulo, o Presidente acabara de anunciar que havia ainda uma tnue possibilidade de se conseguir uma 
proscrio das provas nucleares; se isso falhasse, o gnio do poder blico termonuclear e seu diablico companheiro, o 
genocdio, sairiam para sempre da garrafa. Nesses mesmos dias, os jornais estavam cheios de reportagens sobre as centenas 
de pessoas detidas em Birmingham. E na mesma tarde em que estava escrevendo algumas destas idias, um motim ocorreu 
no Harlem e houve uma passeata que desceu a Amsterdam Avenue, em Nova York, passando pela Universidade de 
Colmbia e a meio quarteiro de nossa residncia. Um dstico dos ltimos quatro versos de Shakespeare no Rei Lear 
martelava-me no esprito: 
Ao peso destes tempos sombrios devemos obedecer, 
Digamos o que sentimos, no o que devamos dizer. 
Se tivssemos ento a iluso de que, logo que esses dois problemas fossem sanados, ficaramos aliviados de nossa precria 
situao, no tardariam novos desapontamentos. Pois no demorou que vssemos os nossos fuzileiros desembarcarem na 
Repblica Dominicana, com o resultado de que se garantiu uma situao permanentemente precria e, depois disso, 
comeou a escalada no Vietn, para a qual, sejam quais forem as opinies polticas de cada um, parece no existir um 
desfecho que no seja negativo. Menciono estas coisas para indicar que no restam grandes dvidas de que estaremos 
vivendo numa situao mundial precria nas prximas dcadas; a menos que fechemos os olhos s realidades, viveremos 
em crise por algum tempo. Por isso nos cumpre ainda mais, como psiclogos, que nos preocupemos com a questo da 
responsabilidade social. 
A primeira coisa que nos impressiona, ao considerarmos este tema,  que ns, como psiclogos, at quatro ou cinco anos 
atrs, no assumimos a nossa responsabilidade social de qualquer forma adequada ou no grau que a sociedade tinha o direito 
de esperar de ns. Em 1954, Arthur Compton convocou uma conferncia sobre Cincia e Responsabilidade Social. Receio 
bem que fosse indicativo do nosso alheamento o fato de s haver um psiclogo presente. A conferncia reuniu fsicos, 
como Comptofl e Heisenberg, biologistas, filsofos e humanistas. Os fsicos nucleares, em particular, tm estado  nossa 
frente na tomada de responsabilidade sobre a questo dominante em nosso mundo, isto , a eventualidade de uma guerra 
termonuclear. Felizmente, a situao mudou nos ltimos anos: os psiclogos ocuparam o seu lugar na vanguarda, a respeito 
dessas questes. Creio que, em relao aos fsicos, existe a seguinte diferena: os psiclogos assumiram o seu papel como 
cidados responsveis e, at onde me  dado ver, o que ainda est faltando  um interesse responsvel pelo fato de que o 
desenvolvimento da prpria cincia da Psicologia contm perigos para a sociedade, tal como aconteceu com o 
desenvolvimento da Fsica. 
Por que foi que os fsicos nucleares se engajaram muitos anos antes dos psiclogos? No foi porque eles, soubessem 
melhor do que ningum o tremendo poder destruidor das armas nucleares; depois de Hiroxima, todos ns sabamos isso. As 
suas prprias mos tinham participado na fabricao da bomba e o seu alheamento social estava irrevogavelmente abalado. 
No ser lcito interpretar o seu engajamento e a sua preocupao responsvel como uma reao construtiva ao prprio 
sentimento de culpa? Um dos fsicos comentou, no momento em que se realizava a primeira fisso: Nem um s de ns 
saiu do posto de observao de Los Alamos sem dizer no seu prprio ntimo: 
Santo Deus! O que foi que fizemos? No  que qualquer deles acreditasse que no deveriam ter desenvolvido a fisso 
atmica que possibilitou a construo da bomba  isso teria significado um retrocesso cientfico que, mesmo no caso de ser 
possvel, era impensvel do ponto de vista deles ou do nosso. Mas o abalo que eles experimentaram diretamente em seus 
relacionamentos eu-mundo resultou, felizmente, para muitos deles, no aparecimento de um novo nvel de conscincia, um 
nvel que tinha de incluir agora, forosamente, a responsabilidade social. 
Eu proponho, analogamente, que um confronto construtivo com a nossa prpria culpa como psiclogos  o lugar mais 
saudvel para comear. Isto poder parecer estranho na maioria dos departamentos de Psicologia, onde se reconhecer, no 
mximo, que essa culpa  apenas potencial, no real. Mas seria deveras lamentvel se tivssemos de esperar, como 
profisso, que algum cataclismo equivalente  desintegrao atmica, transformando a mente e o esprito do homem 
moderno, nos forasse a despertar para o poder que estamos manejando. Robert Oppenheimer j nos lembrou, em seu 
discurso perante a merican Psychologial Association, em sua conveno de 1955, que a responsabilidade do 
psiclogo 6 ainda maior que a do fsico. Disse Oppenheimer: Dificilmente o psiclogo poder fazer alguma coisa sem se 
aperceber de que, para ele, a aquisio de conhecimentos abre as mais aterradoras perspectivas de controle sobre o que as 
pessoas fazem, como pensam, como se comportam e como se sentem. 1 
Se as palavras de Oppenheimer so corretas  e parece-me bvio que so  a lgica da nossa situao requer que nos 
despojemos dos nossos ornamentos profissionais e faamos um exame ntimo, mais profundo e mais sincero do que  
costume em nossa ou em qualquer outra profisso liberal. Talvez seja apropriado que um psicanalista assuma o papel do 
moscardo de Scrates, propondo algumas questes para esse auto-exame. 
A PRIMEIRA questo  a que se refere  nossa tendncia para racionalizar a falta de engajamento com a atitude de espere 
at que se apresentem todas as provas. Mas a situao crtica do nosso mundo contemporneo e a natureza das questes 
no se caracterizam, precisamente, pelo fato de no poderem aguardar os testes decisivos? No podemos esperar pela 
prova de uma guerra termonuclear; no podemos aguardar um teste completo sobre os efeitos da radiao. A ironia da 
nossa situao  que, se esperarmos a apresentao de todas as provas, no estaremos aqui para usar essas provas, quando 
elas chegarem. O meu argumento,  claro, no  contra um esforo disciplinado para obter todas as provas possveis. 
Mas  contra o uso desse respeitvel ideal como substituto do engajamento.  como se quisssemos esperar o 
tempo bastante para que as provas tomassem uma deciso por ns! Robert Lifton observa muito bem, no seu 
estudo sobre o controle da mente, que qualquer desprendimento complexo, de ordem moral ou pessoal, no 
trabalho psicolgico (ou qualquer outro), , na melhor das hipteses, uma atitude de auto-iluso e, na pior, 
uma fonte de perniciosa distoro. 2 
Mas um ponto ainda mais importante para ns, como psiclogos, a esse respeito, parece ser o seguinte: a 
natureza das questes com que nos defrontamos  tal que no podemos Conhecer a verdade se no nos 
engajarmos. No captulo 2, mencionamos a afirmao de um participante num debate sobre as questes de 
guerra nuclear, que assim s dirigiu s pessoas que o ouviam: No podemos exercer qualquer influncia na 
questo sobre se haver ou no guerra. Isso  decidido pelos conselhos de um punhado de responsveis pela 
alta poltica, que se renem em Berlim ou Moscou. A minha resposta foi esta: Reconheo que o que o senhor 
disse parece ser verdade e dispe de abundantes provas para isso. Mas mesmo que tivesse todas as provas 
do mundo, eu no acreditaria, apesar de tudo. 
Como a platia compreendeu perfeitamente, eu no estava fazendo uma declarao antiintelectual. Eu estava 
dizendo, antes, que se aceitssemos a afirmao do meu oponente, permaneceramos passivos; e a afirmao 
tomar-se-ia verdadeira em virtude de a aceitarmos passivamente. Se, por outro lado, recusssemos aceit-la e 
fizssemos tudo o que estivesse ao nosso alcance, por muito pouco que fosse, para influenciar o Congresso, o 
Presidente e outros lderes, ento mesmo um grupo de apenas algumas centenas de pessoas teria uma certa 
significao. 
 nesse ponto que a liberdade poltica comea, ainda que, para comear, seja infinitamente pequena. E  um 
credo da democracia que tal influncia pode aumentar geometricamente. como uma benvola reao em cadeia. 
Todos sabemos que a democracia pode deteriorar para uma f. cega em quantidades, algarismos e estatsticas 
exuberantes. Mas no  a democracia, em suas origens e em seus representantes supremos, algo muito 
diferente, a saber, uma f na qualidade do compromisso pessoal? Na mesma ordem de idias, a liberdade no  
uma questo de 
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faa o que lhe apetecer mas, antes, o poder das nossas aes. como pessoas, para se revestirem de 
significao, para importarem, ao nosso grupo. 
A minha opinio  que as experincias crticas da vida, como o amor, a guerra e a paz, Rio podem ocorrer sem 
nos comprometermos com elas. E as declaraes sobre essas experincias s podem ser verdadeiras se ns, ou 
algum, nos entregarmos responsavelmente s convices, nelas expressas. Voltaremos a esta questo mais 
adiante, em nossa discusso dos valores. 
UMA SEGUNDA QUESTO que surge nesse auto-exame  a da nossa ingenuidade sobre o problema do 
poder. Quando observo psiclogos, apercebo-me de que compartilhamos, em grande medida, daquele aspecto 
da doena vocacional dos intelectuais ocidentais que consiste em no vislumbrar os aspectos trgicos e 
demonacos do poder  na verdade, em fazer de avestruz para no v-los. Nos primeiros estudos sobre relaes 
raciais, eu no vislumbrei no trabalho dos psiclogos uma conscientizao das exploses que estavam para 
ocorrer na desagregao e nas relaes raciais. No havamos subestimado o grau do poder explosivo da 
paixo acumulada e reprimida (num sentido freudiano) e a presso das determinantes econmicas no grupo 
suprimido (num sentido marxista)? Os artistas, nas pessoas de romancistas como Lillian Smith e James 
Baldwin, resultaram ser melhores profetizadores do que ns da agitao e dos motins em torno da 
desagregao. 
Neste caso, o problema bsico 6 que a nossa estrutura mental como psiclogo parece ser de uma natureza que 
nega e reprime o poder. Em minha opinio, somos propensos  uma vez mais, compartilhando, nesse sintoma, 
da doena vocacional dos intelectuais ocidentais, que  a excessiva nfase sobre o racionalismo  a aceitar 
literalmente a sentena de Aristteles de que o homem  um animal racional porque isso torna as nossas 
hipteses mais simples, permite-nos o conforto de continuar como homens de boas maneiras que partem do 
princpio de que os outros homens agem to racionalmente quanto ns pensamos agir. E como as nossas 
provas assentam em nossas prprias pressuposies, que ignoram ou negam o poder, elas apresentam-nos 
naturalmente, resultados que no revelam as necessidades de poder que impelem pessoas ou grupos. 
Como tenho freqentemente pensado, enquanto entrevistava psiclogos para ingresso em escolas analticas, 
existe um fator seletivo em ao,  medida que a nossa profisso tende a atrair o tipo de indivduo que nega ou 
reprime as suas prprias necessidades de poder. Essas necessidades reprimidas de poder tm, ento, campo 
para se manifestar na propenso do psiclogo para controlar outras pessoas atravs da psicoterapia ou em sua 
identificao com o poder das tcnicas e mquinas do seu laboratrio. Nos candidatos que querem ser 
treinados como psicoterapeutas, no  raro eu descobrir o padro de uma pessoa isolada que quer 
relacionamentos e sente-se atrada para a prtica teraputica porque ela lhe proporciona um relacionamento 
simulado que a far sentir-se menos isolada  um caso cativo de amor ou de amizade que,  claro, no  amor 
nem amizade e que, de fato,  um fracasso teraputico,  medida que  cativo. Analogamente, as necessidades 
inexpressas e reprimidas dos psiclogos que se entregam  pesquisa encontram uma forma ideal para ganhar 
expresso, a saber, a preocupao com o poder das tcnicas para controlar outras pessoas. 
Um aspecto da auto-iluso, relacionado com o que acima se descreveu,  que a nossa convico de que a pena 
 mais poderosa do que a espada tende a converter-se numa suposio gratuita de que, portanto, a espada, ou 
o poder,  irrelevante. E, mirabile dictu, no logramos enxergar que a palavra falada ou escrita pode ser to 
irresponsvel e to perversa quanto a espada. Quando algum nos ataca com uma espada ou nos ataca 
economicamente, como na competio de negcios da Madison Avenue, podemos ver, pelo menos, contra 
quem nos temos de haver; ao passo. que as palavras que so usadas para fins de poder, como no controle do 
pensamento, podem ser mais perversas e mais difceis de enfrentar com xito,  medida que elas atacam o 
centro da identidade e da autoconscincia. 
Quanto menos fizermos de avestruz em relao ao problema do poder destrutivo, mais eficazmente poderemos 
ajudar ns prprios e a nossa sociedade a transferir as necessidades de poder para metas positivas. Veja-se, 
por exemplo, o problema da paz. Nos meus tempos de universidade, acreditvamos na paz, organizvamos 
passeatas em favor da paz, fazamos campanhas pacifistas e estvamos to condicionados a pensar em 
termos de 
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paz que nunca permitamos sequer que nos passasse pela cabea a possibilidade de uma outra guerra. Mas 
essa atitude deixou-nos totalmente despreparados para ver ou lidar com um Hitler; no percebemos sequer 
esse surgimento de um poder maligno (por muito tempo, senti vergonha de recordar isso) porque um tal poder 
irracional e primitivo no se ajustava s nossas categorias e conceitos. Simplesmente, no podia existir. Mas 
existia, quer quisssemos v-lo ou no. Os intelectuais liberais da Alemanha e do resto da Europa caram na 
mesma armadilha; entregaram-se nas mos dos ditadores porque no souberam levar em conta as trgicas 
realidades do poder e, por conseguinte, no se engajaram a tempo. 
O que estou advogando  como uma esperanosa conseqncia desse auto-exame   uma ampliao e 
aprofundamento da nossa conscincia, de modo a aceitar o problema do poder em seus aspectos trgicos, 
diniticos e demonacos. Se eu estivesse ensinando num curso de introduo  Psicologia, recomendaria aos 
alunos alguma leitura de Karl Marx, no pela sua filosofia econmica mas porque ele compreendeu o 
significado bsico do poder econmico e social irracional e viu que a forma como se adquire o poder 
condiciona o conjunto particular de crenas racionais (ideologia) que se escolhe. Assim,  possvel 
reconstituir a nossa conscincia em dimenses mais vastas, de modo a incluir a percepo e compreenso dos 
aspectos socialmente destrutivos do poder, e tambm para mobilizar as nossas prprias necessidades de 
agresso e poder ao servio dos aspectos construtivos das questes sociais. No foi isso o que William James 
procurou como o equivalente moral da guerra? A paz no ser ento um vazio  um estado passivo, ablico, 
no-herico e montono  mas desafiara e exigira todas as nossas potencialidades. 

UMA TERCEIRA QUESTO para auto-exame  a tendncia anti-histrica na Psicologia. Somos propensos a 
vermo-nos acima da Histria e no vemos que a nossa psicologia e, de fato, a cincia moderna, so produtos 
histricos como qualquer outro aspecto da cultura. A cincia assumiu numerosas formas muito diferentes na 
cultura ocidental; e , certamente, uma atitude arrogante supor que a nossa prpria forma de cincia  absoluta 
e final, O conceito grego de que a cincia  o desvendamento do logos, a estrutura significativa do universo, 
baseou-se no particular respeito dos gregos pela natureza. A concepo medieval, formulada pelos 
escolsticos e Toms de Aquino, de que toda a natureza se ajusta numa ordem racional, tornou-se a base da 
moderna cincia experimental; proporcionou aos cientistas a crena em que todos os segmentos de suas 
diversas reas de pesquisa poderiam se conjugar e ter um nexo. Nos tempos modernos, o poder sobre a 
natureza, em vez da sua descoberta e compreenso, passou a ser a meta (vide a sentena de Bacon, Saber  
poder). E os mtodos para se alcanar o poder tinham de basear-se no modelo da mquina. Assim comeou a 
preocupao do homem ocidental com o clculo e o controle da natureza fsica. 
Dois desenvolvimentos foram, pois, decisivos para o nosso dilema como psiclogos em nosso mundo 
contemporneo. Um deles foi a transferncia, no. sculo XVII e subseqentemente, do absolutismo moral e da 
autoridade da Igreja para a Cincia. O segundo foi o empenho, iniciado no sculo XIX, para fazer tambm do 
homem um objeto de clculo e controle, e aplicar os mtodos que ainda eram to impressionantemente frteis 
na conquista do poder sobre a natureza fsica para ganhar poder sobre os seres humanos. 
 precisamente aqui, segundo me parece, que reside o dilema da Psicologia moderna. Ns somos os 
representantes da cincia moderna que estamos destinados a funcionar no domnio da mente e do esprito do 
homem. (E certamente no podemos fugir ao dilema substituindo esses termos por outros, como 
comportamento e conscincia.) Somos herdeiros, quer estejamos cnscios disso ou no, do manto de 
absolutismo moral da cincia e esse manto pesa sobre ns (como a camisa de Hrcules) mais perigosamente do 
que sobre os fsicos, que lidam com a natureza inanimada, ou os mdicos, que podem, pelo menos, dizer a si 
mesmos que lidam com o corpo. Foi-nos entregue pela sociedade, quer o desejssemos ou no, a intimao de 
apresentarmos respostas s interrogaes fundamentais da tica e do esprito; e  esperado em muitos setores, 
dentro e fora dos dom!nios cientficos, que essas respostas sejam produzidas pelas nossas tcnicas e nossas 
mquinas. Assim, o nosso dilema  se podemos ter uma cincia do homem e, ao mesmo tempo, evitar a 
tendncia para reformar o homem  imagem e semelhana das mquinas e tcnicas mediante as quais o 
estudamos. Quer dizer, se podemos ter uma cincia da Psicologia e, apesar de tudo, preservar ainda os valores 
e caractersticas que distinguem o homem como pessoa, aqueles valores que constituem a sua humanidade. 
No existem respostas fceis para essas interrogaes; mas acredito que existem respostas e muitos de ns 
no estaramos 
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no campo da Psicologia se acreditssemos que no existiam. A interrogao acima, portanto, no  se mas de 
que maneira poderemos ter uma cincia do homem e preservar, ao mesmo tempo, esses valores. 
A sociedade,  claro, abriga uma boa dose de ambivalncia em relao  Psicologia, a qual  mais contundente 
e mais radical do que a ambivalncia usual em relao  cincia. Espera-se de ns que nos arvoremos em Deus 
mas somos temidos e detestados como o diabo na mesma proporo em que somos cultuados. Bancar Deus, 
por parte de um estado, ou uma cincia, ou um grupo de pessoas, resultar inevitavelmente nesse Deus-
criatura ser visto como um demnio. G Mas , de fato, uma perspectiva tentadora  a boa autoridade revela-nos 
a mais poderosa e implacvel de todas as tentaes.  neste ponto que o nosso exame tio ns prprios  
crucial. E no podemos encontrar uma til ajuda para esse auto-exame, ainda que tal ajuda sempre seja 
desagradvel, nas crticas que so dirigidas  nossa profisso pela nossa sociedade? 
Refiro-me aos tumultos na comunidade de Long Island contra os testes educacionais; a livros tais como The 
Brain-Watchers; s crticas de William S. Whyte aos testes vocacionais e  psicoterapia; ao ataque de Joseph 
Wood Krutch contra o condicionamento operante de Skinner. Parece-me que a nossa tendncia para nos 
julgarmos acima da Histria nos cegou para o significado subjacente dessas crticas, e muito menos nos 
ajudou a enfrent-las construtivamente. No nos escapar a sua verdadeira finalidade se as apodarmos, 
simplesmente, de ataques injustos e as rejeitarmos com a demonstrao de que os autores de tais criticas 
estavam errados em seus detalhes fatuais? O problema no  que um indivduo rabugento tenha escrito um 
livro ou que alguns grupos ou indivduos vociferantes sejam vtimas de testes mal aplicados ou que certos 
indivduos eloquentes sejam acidentados da psicoterapia. No.  muito mais proveitoso e acertado encarar 
esses ataques como sintomticos de uma desconfiana subjacente que a sociedade deixa transparecer a nosso 
respeito. Deveramos indagar: Sintomticos de que espcie de desconfiana e por que razes? Por certo que 
William Whyte e Joseph Wood Krutch, para citar apenas dois exemplos, no podem ser considerados pessoas 
obscurantistas, no esclarecidas ou indiferentes ao bem-estar pblico. 
Sem dvida, a primeira interrogao que devemos dirigir a ns prprios  esta: Ser que, de fato, tentamos nos 
arvorar em Deus? Esta interrogao nada tem de inslito. Falando sobre as relaes entre as tendncias 
contemporneas para endeusar a cincia e o controle do pensamento, Robert Lifton teve estas palavras lcidas 
a dizer: 
Paralelamente a esse endeusamento, observa-se a esperana de que a cincia fornea uma teoria completa e 
absolutamente mecanistica de um universo fechado e totalmente previsvel,  fsica moderna h muito 
repudiou esse ideal mas ele persiste nas cincias humanas  biolgicas, psicolgicas e sociais  e  
particularmente perniciosa nesses domnios.  reforma do pensamento  a sua expresso bsica  uma imagem 
mecanizada do homem dentro de uma sociedade fechada e uma pretenso de mtodo cientfico na 
reconstruo do homem segundo essa imagem .
Assinalei no captulo anterior como camos, em minha opinio, no desempenho do papel de Deus, na 
Psicologia. Que implicaes tem a situao, de fato, para o problema da nossa responsabilidade social? 
Alguns DE NOSSOS colegas sustentam que a aceitao da nossa responsabilidade social exige que 
assumamos o papel de controlar e manipular outros. Eu no concordo, no s porque semelhante curso 
contraria a minha concepo democrtica de sociedade mas, ainda mais importante, porque acredito que esse 
curso age contra o aparecimento e desenvolvimento de valores humanos. No  que qualquer de ns negue, 
em absoluto, que os seres humanos podem ser controlados, dentro de certos limites e por determinados 
perodos de tempo  pelas drogas, pelo condicionamento, pela hipnose e pelo controle do pensamento. Nem 
qualquer de ns pode negar que alguns elementos de controle e o estabelecimento de condies esto 
presentes em todos os relacionamentos humanos  terapeuta com o paciente, pais com filhos, professor com 
estudantes. Mas a diferena decisiva  se esse controle pressupe ou no a outra pessoa como sujeito ou 
como objeto; se esse controle est ou no associado  manipulao  estritamente falando, o uso das mos 
(manus para modelar outrem  ou ao propsito de ampliar a conscincia
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e a liberdade da outra pessoa para participar, responsavelmente, na escolha de valores sociais. 
Alguns exemplos do que entendo por controle podem ser interessantes. Um exemplo  que eu 
ensino o meu filho, firmemente e com genuno controle, a esperar pela luz verde antes de atravessar 
uma rua. Mas no estou com isso tentando, simplesmente, estabelecer um novo hbito ou inculcar 
uma nova forma de comportamento. O que procuro  esclarecer para ele o princpio, explicar a 
situao, na esperana de que,  medida que cresce, a sua conscincia ser ampliada de modo a 
incluir os aspectos da experincia de trnsito que possam ajud-lo a adaptar-se a futuras situaes 
sobre as quais nada sei, o trnsito nas super-rodovias expressas (que Deus nos acuda!) ou o trnsito 
entre as estrelas, mais dia menos dia. Nesse sentido, o controle que exero sobre o meu filho est ao 
servio da ampliao da sua responsabilidade e da sua margem de liberdade consciente. 
Tomemos tambm um exemplo extrado da Psicoterapia. Todos ns estamos inteiramente a par de 
quanto controle est envolvido na terapia. Mas,  medida que se trata de controle ao servio de 
amoldar o paciente a uma dada forma de comportamento, eu acredito que isso  mais fracasso do 
que um xito da terapia. Por certo, o terapeuta tem muito a ver, justamente, com o estabelecimento 
das condies da terapia, de acordo com a realidade dos fatos de tempo e espao; por exemplo, h 
certas horas reservadas para o paciente; ele no chega a qualquer hora que lhe apetea nem ocupa 
qualquer lugar que deseje. Mas o ponto importante no , centralmente, que o paciente se ajuste a 
essas condies. Pelo contrrio, como o paciente reage s condies, as discute, as desafia etc.,  o 
mais importante de tudo, quando consideramos como finalidade central da terapia no o inculcar 
novos hbitos mas, antes, proporcionar uma situao em que o sentido de identidade, significao e 
responsabilidade do paciente possa ser descoberto e desenvolvido. 
Um paciente meu, por exemplo, chegava sistematicamente atrasado s suas sesses. Eu poderia, 
com bastante facilidade, descondicion-lo desse mau hbito obviamente frustrador para o 
paciente. Mas, para mim, era muito mais importante cooperar com ele para tentar descobrir o que o 
paciente tinha a dizer sobre as suas chegadas tardias (descobrir tanto para ele como para mim, visto 
que o paciente no tinha conscincia dos motivos por que se atrasava e, portanto, no tinha ainda um 
controle responsvel sobre isso). Para esse paciente, cuja vida se desenrolara toda ela, at ento, no 
contexto de um pai famoso e poderoso chegar atrasado, nos primeiros tempos da terapia, era um ato 
construtivo, independente. Com efeito, seria uma perda clara se ele superasse esse sintoma antes de ter uma 
oportunidade de compreender a linguagem do sintoma e ouvir o que este lhe estava dizendo. Tenho grandes 
dvidas sobre o paciente que se ajusta bem demais s nossas condies  o paciente submisso, 
complacente, que procura agradar e que tenta adivinhar o que, na idia dele, eu acredito que ele devia fazer e 
depois se mostra ansioso por faz-lo. Ns obtemos xitos aparentes com esse tipo de paciente (um xito que 
poder durar muitos anos) mas, a longo prazo, creio que o prognstico para esse tipo  o mais duvidoso de 
todos. A este respeito,  significativo que os estudos da terapia condicionante indiquem que os pacientes 
mais complacentes, mais suscetveis de hipnose, sugestionveis, so os mais receptivos ao tipo de terapia 
condicionante. 8 
O nosso problema consiste, pois, em compreender a natureza dos valores sociais e a inter-relao da liberdade 
do indivduo com esses valores. Segundo julgo, o nosso cumprimento da responsabilidade social, no sentido 
positivo, depender da for m como ns, psiclogos, solucionarmos esse problema da rela  da liberdade 
individual com os valores sociais. 
Proponho a existncia de uma relao dialtica entre valores sociais e liberdade individual, e que no 
podemos ter uma coisa sem a outra. Nas culturas humanas civilizadas, no existe aquilo a que se possa 
chamar um valor puramente social; os valores so dados e transmitidos na tradio da sociedade e esto 
constantemente sujeitos a afirmao, desenvolvimento e reforma por indivduos na sociedade que exercem 
uma certa margem de liberdade para ratificar ou desafiar. Esses valores surgem continuamente em novos nveis 
de conscincia,  medida que o indivduo interatua com o seu grupo. Se possumos apenas algo que pode ser 
transmitido pela cultura, independentemente da escolha ou afirmao consciente pelo indivduo, temos 
costumes, tradies. Estou usando o termo valor para indicar um impulso no sentido de alguma nova forma 
de comportamento   metas, finalidades da vida que nos dedicamos e em direo s quais decidimos caminhar 
porque acreditamos serem os mais desejveis modos de vida. Essa relao dialtica entre liberdade individual e 
valor social  estabelecida tanto na conscincia subjetiva do indivduo como em seu comportamento objetivo, 
e  causa de transformaes na sociedade  medida que se desenrola. 
 
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H uns vinte anos, argumentei em diversos trabalhos que os valores eram necessrios e inevitveis nos 
aspectos da Psicologia e Psiquiatria que se relacionavam com a ajuda a pessoas, notadamente a Psicoterapia. 
Nessa poca, esse ponto de vista foi geralmente rejeitado, mas, agora,  francamente aceito. Mas a concluso 
de que, portanto, o psiclogo deveria prescrever valores a outros no foi a melhor soluo. Ela evidencia uma 
concepo extremamente simplista dos valores. Entre os psicoterapeutas h uma tendncia para refletir os 
princpios morais do particular perodo histrico em que vivem. Assim, eles prescrevem os valores do seu 
prprio grupo a pacientes que, em virtude de sua ansiedade e confuso, esto se aferrando a algum modo de 
vida que lhes d segurana  e os terapeutas,  claro, podem inculcar os valores do seu grupo mediante 
tcnicas de lii- fluncia psicolgica que so paralelas  lavagem cerebral. Embora isso possa, de fato, propiciar 
ajustamento, assim como uma certa segurana e felicidade temporrias, o certo  que opera contra a 
sensibilidade tica e a criatividade, e contra o surgimento do novo que, afirmo,  uma parte necessria de 
qualquer valor vivel. 
 importante deixar bem claro este ponto: embora a nossa cincia possa testar certos valores, o contedo do 
prprio valor no promana da cincia. Podemos estabelecer uma pesquisa sobre as atitudes e modos de 
comunicao das pessoas a respeito da paz, e a relao entre essas atitudes e a segurana ou o pnico; mas a 
crena na prpria paz deve resultar de algo mais do que a nossa cincia. O fato de que eminentes mdicos 
alemes, incluindo mdicos judeus, trabalharam para Hitler em seu pra- grama de extermnio, deixa bem claro 
que o treino especializado numa cincia no  suficiente para garantir uma escolha humanitria de valores. 
Heisenberg, responsvel pelo Instituto Nacional de Fsica na Alemanha nazista, decidiu trabalhar para impedir 
que Hitler obtivesse a bomba atmica, no por causa da sua cincia mas por causa de sua humanidade. 
O contedo dos valores promana, sobretudo, da religio, filosofia e outras disciplinas no campo das 
humanidades; e  assim 4ue deve ser. Se a cincia no d o contedo dos valores, no  porque a cincia ainda 
no tenha progredido o bastante. , antes, porque o contedo dos valores e as comprovaes que a cincia 
realiza situam-se em dois nveis diferentes. Como Albert Einstein disse, o mtodo cientfico nada mais nos pode 
ensinar alm de como os fatos esto relacionados entre si e mutuamente condicionados; ... a aspirao a tal 
conhecimento objetivo pertence aos nveis supremos de que o homem  capaz... Entretanto,  igualmente claro 
que o conhecimento do que no abre a porta diretamente para o que deve ser... Tornar claros esses fina e essas 
avalla&s fundamentais, e vincul-los  vida emocional do Individuo, parece ser, precisamente, a funo mais 
importante que a religio tem a desempenhar na vida social do homem 10 
No s fazemos  cincia um desservio quando esperamos que ela faa tudo, incluindo o fornecimento de 
nossos valores; tambm nos divorciamos de muitos milhares de anos da lenta evoluo da sabedoria humana e 
nos tornamos ingnuos em relao aos valores. 
FiNALMENTE, desejamos destacar vrias consideraes a respeito da inter-relao entre a liberdade individual 
e os valores sociais, que acreditamos serem essenciais para uma soluo do nosso problema. 
A primeira  que o aparecimento de um novo valor ocorre, em maior ou menor grau, como um 
ataque aos valores existentes da sociedade. Um novo valor , num sentido, uma resistncia  
aculturao, como disse Maslow; na verdade,  uma quebra temporria na aculturao. Esse ataque  cultura 
ocorre na concepo do novo valor e na sua aplicao. Basta olharmos superficialmente a nossa tradio 
ocidental ou qualquer outra tradio para perceber que os lderes ticos, como Scrates e Jesus, por exemplo, 
foram considerados inimigos tamanhos da sociedade que acabaram sendo executados pelo Estado. Eles 
certamente eram inimigos do Estado como status quo. O fato de terem sido recompensados pela sociedade 
com a execuo  o que deveramos esperar, pois o status quo deve ser combatido para que possa surgir algum 
novo valor essencial ao crescimento e  conscincia tica da civilizao. Foi isso o que Tillich quis dizer com 
o deus alm de deus. 
A segunda considerao diz respeito  importncia de se preservar e respeitar o direito e capacidade do 
indivduo de inquirir. Um princpio que todos os sistemas de controle manipulatrio tm em comum  que 
o indivduo no pode pr em dvida os pressupostos bsicos. Neste ponto, uma fonte muito importante e rica 
de dados  o estudo de Lifton a que j nos re 
Comunicao pessoal 
221 
ferimos. Ele descreve o sistema impressionante e surpreendentemente inteligente de recompensas e punies 
que os comunistas chineses inventaram para reeducar os seus prisioneiros pelos mtodos de controle do 
pensamento. Se a pessoa, como prisioneiro, puder aceitar a estrutura, ela poder sair-se bastante bem. Mas o 
ponto fundamental  este: no se deve discutir os pressupostos fundamentais em que o sistema 
est baseado. As metas fundamentais so estabelecidas por outras pessoas, neste caso, a hierarquia 
comunista, sem relao alguma com esse indivduo dado; ele  inteiramente o objeto de tcnicas. 
Mas a capacidade de questionar as metas fundamentais  uma das caractersticas que distingue o homem 
como homem na escala evolucionria. E no  a discusso e contestao de metas tais como o sistema de 
guerra, ou mesmo a soberania nacional, a nossa nica possibilidade de influir, de forma responsvel, na 
direo da nossa prpria evoluo? A minha experincia pessoal situa-se, principalmente, ao nvel do 
psicoterapeuta, trabalhando com seres humanos em ansiedade intensa e sofrimento profundo, em certos casos 
 beira da psicose  quer dizer, nveis em que as aspiraes usuais da vida so postas de lado. Estou 
convencido por mais dados que, praticamente, vo se acumulando hora a hora, a cada dia, de que a capacidade 
nascente do paciente para contestar aquelas metas, digamos, que seus pais exploradores lhe impem, ou as 
suas prprias metas sadomasoquistas,  um ponto altamente significativo em seu movimento rumo  sade. 
Este princpio parece ser obviamente verdadeiro para alm das reas da neurose ou da psicose. 
Estar apto a inquirir, a pr em dvida e contestar  o comeo da experincia de identidade 
de uma pessoa. Essa aptido  o que distingue o eu do mundo, o que possibilita a experincia do prprio eu 
como sujeito num mundo de objetos. O perigo, quando uma pessoa  tratada como um objeto de controle e a 
atitude de contestao fundamental  proibida,  que essa experincia do eu como sujeito em relao a um 
mundo de objetos se perca. 

 TERCEIRA CONSIDERAO, em nossa compreenso da relao entre liberdade individual e valores 
sociais, talvez seja a mais importante de todas.  que os valores humanos nunca so simplesmente 
unilaterais, como uma rua de mo nica, mas envolvem sempre um no e um sim  a que eu 
chamarei aqui uma polaridade de vontade. Com efeito, todo e qualquer evento ria experincia humana no 
 uma relao dialtica entre tais plos positivos e negativos? A razo por que o direito de protesto, de dar um 
voto negativo, tem sido to precioso na Histria ocidental como um penhor da dignidade da pessoa, desde os 
tempos de Arns e Miquias at o Arepago em Atenas, a Magna Carta na Inglaterra etc.,  que essa vontade 
negativa constitui, realmente  isto , torna possvel  a vontade positiva. Afirmei acima que a capacidade de 
inquirir e contestar  o comeo da experincia de identidade. E afirmo agora que essa liberdade de dizer no  
o que confere substncia e poder  nossa experincia pessoal de identidade,  medida que prova que o que 
sentimos e pensamos tem importncia, E isso gera a possibilidade de ser um rebelde, 12 de sentir clera e 
revolta, que so experincias potencialmente construtivas. 
Na psicoterapia devemos,  claro, lidar o tempo todo com essa polaridade de reao e eu penso, 
freqentemente, que se trata do ponto mais crtico da questo de saber se poderemos ou no ajudar uma outra 
pessoa a adquirir sade. Freud viu isso e enfrentou a questo em sua nfase sobre a necessidade de provocar 
a manifestao de hostilidade e a transferncia negativa no paciente. Ranlc descreveu isso, especificamente, 
como a polaridade da vontade e nela baseou todo o seu sistema de terapia. Jung descreveu essa situao ao 
sublinhar que um elemento negativo est sempre presente na conscincia, sobre qualquer questo, para 
contrabalanar o elemento positivo e em proporo aproximada com este. Acredito, na mesma ordem de idias, 
que um dos pontos fracos do sistema teraputico de Carl Rogers  o seu descaso pelo aspecto negativo da 
vontade. Por exemplo, na prtica da congruncia eu vejo uma tendncia para cobrir as diferenas emocionais 
entre o paciente e o terapeuta, para limitar a variedade e a profundidade dos afetos tratados na terapia, para 
subestimar a clera, a hostilidade e o conflito, O paciente tanto experimenta a sua identidade colocando-se 
contra como a favor do terapeuta e ocultar os elementos negativos torna isso 

223 
mais difcil para o paciente. Rogers,  claro, colocou-se na vanguarda daqueles que insistem no respeito pelo 
paciente. Mas o respeito no  demonstrado da melhor e mais profunda maneira pelo franco reconhecimento 
da clera, hostilidade e conflito com outrem mas, ao mesmo tempo, sem retirar nem um pouco do 
relacionamento? Com efeito, tal incluso do negativo pode, normalmente, tornar um relacionamento mais 
slido e digno de confiana, assim como o respeito mtuo dele decorrente. 
Esse elemento negativo-positivo  bvio na natureza fsica, nos padres de atrao e repulsa de neutrons e 
protons; mas assume muito maior significao ao nvel da conscincia humana. Para mim, ser cnscio 
significa que posso estar consciente do fato de que eu sou aquele que se rebela, nega, sente hostilidade ou 
clera; e eu, portanto, posso e, em princpio, devo tomar, at certo ponto, alguma responsabilidade por isso. 
Isto segue-se como um dado da experincia psicolgica: estar cnscio do fato de que  a nossa prpria clera, 
rebelio etc., j constitui um elemento de responsabilidade. O fato das excees a isso serem patolgicas (por 
exemplo, o desafio do psicopata) apenas demonstra ainda mais este ponto. A conscincia consiste em figura-
fundo: 
para pensar uma coisa eu devo, nesse momento, excluir outras coisas; para perceber uma coisa, eu devo 
excluir, negar, todas as outras coisas, por alguns instantes. Neste sentido, o conflito  da prpria essncia 
da conscincia. 
A polaridade da vontade, sobre que estou falando, poder no se manifestar ainda, de uma forma notria, em 
nossos estudos empricos e de laboratrio, mas isso no deve causar-nos surpresa. Com efeito, os nossos 
pressupostos, o prprio contexto do nosso pensamento, tendem, em primeiro lugar, para excluir essa 
polaridade e, por conseguinte, ela no aparece nos resultados. Contudo, existe um certo nmero de dados 
significativos para estudo.3 Veja-se, por exemplo, os estudos de Dollard so13 Ver tambm Tkc Infonned Jleart, 
de Bruno Bettleheim, 
a que me referi acima, que contm a anlise altamente significativa de Bettleheim sobre a liberdade 
fundamental do prisioneiro no campo de concentrao para esco1her a sua prpria atitude em relao aos 
seus captores. Essa preservao do direito tztitno  revolta, mesmo nessas situaes extremas em que a 
revolta exterior era inteiramente impossvel, fez com que, em muitos casos, a pessoa pudesse sobreviver. Num 
nvel mais bsico, foi um elemento central para evitar a apatia, a indiferena e o desespero psicolgicos 
(estados estes em que a pessoa tendia a definhar e morrer). E no que, para mim, constitui o nvel mais bsico, 
essa capacidade interior de escolha da prpria atitude  reservar o direito intimo de dizer no, mesmo que a 
pessoa tivesse de fazer a coisa especifica que 
bre a situao dos negros americanos. O homem branco tem recompensado o comportamento 
aquiescente e punido o comportamento rebelde h muito tempo e, no Sul, pressups que estava 
conseguindo alguma espcie de adaptao por parte do negro. Mas as aparncias enganam: o que o 
branco realmente conseguiu, como Dollard demonstrou, foi apatia, indiferena, indolncia e aparente 
estupidez, como defesas contra as presses do homem branco. Esses sintomas podem ser 
corretamente interpretados como protestos neurticos, uma rebelio camuflada do negro para 
preservar uma pseudo-identidade numa situao de incapacidade para a rebelio aberta. Estamos 
agora colhendo os frutos da reao mais profunda que foi reprimida sob esses sintomas, 
notadamente, o ressentimento, a clera e a paixo de desforra ou vingana. 
Isto tem profundas implicaes na Psicologia e certamente na Psicoterapia. No trabalho com 
pessoas, quando nos parece que obtemos concordncia sem que esse elemento negativo esteja 
presente, em certa medida, podemos estar realmente obtendo, to-s, conformismo, apatia, falta de 
entusiasmo e indiferena. 
A minha tese de que o elemento de rebelio  inerente  estrutura da conscincia humana e constitui 
um dos elementos da conscincia recebeu apoio enftico nos mitos clssicos, que so o repositrio, 
em forma quintessencial, da experincia humana de muitos sculos. O mito de Prometeu, por 
exemplo, apresenta a antiga convico grega de que a prpria cultura, incluindo os seus valores, 
nasceu de uma rebelio contra os deuses. 
 interessante que tanto B. F. Skinner como o seu antigo oponente de debates, CarI Rogers, 
subestimaram o significado do conflito humano. (Ser a razo dessa omisso que ambos, como bons 
e esclarecidos psiclogos ocidentais, superestimaram os aspectos racionais do homem e 
subestimaram os aspectos irracionais?) Lembramos no nosso primeiro captulo que Skinner. 
descreveu como puro absurdo 6 argumento de Dostcievski de que os homens provaro que, apesar 
de tudo, so homens e no as teclas de um piano, revoltando-se contra o controlador por mera 
obstinao. No ser o caso de Dostoievski estar descrevendo, ironicamente, a tendncia normal 
e saudvel do homem para se rebelar contra a autoridade prepotente, como Ado fez h muito 
tempo no den, como Prometeu fez na Grcia ar- 
225 
caica, como os nobres ingleses fizeram contra o Rei Joo, como os hngaros fizeram contra os russos, como os 
poetas mais jovens da Rssia de hoje contra o regime que lhes faria bem e preferem correr o risco da priso e 
aceitar o que outros julgam que seria bom para eles? No seria o caso de Dostoievski estar falando da mesma 
caracterstica no homem que um outro russo, desta vez um grande poeta, Alexandre Blok, mencionou quando 
fez um discurso, por ocasio do 84. aniversrio da morte de Pushkin? Em sua orao de 1921, O Destino do 
Poeta, Blok descreveu a liberdade e tranqilidade que as autoridades russas contemporneas estavam 
arrebatando ao poeta: 
No a tranqilidade externa mas a criadora. 
No o infantil faa-o-4ue-lhe apetea, no a liberdade do brincar de liberal, mas a vontade criadora  a liberdade 
secreta. E o poeta est agonizando, porque j no h coisa alguma para inspirar; a vida perdeu o seu 
significado para ele.4 
Estou cnscio de que tambm incorro em petio de princpio ao citar exemplos da Rssia que poderiam ser 
refutados como casos bvios de controle inepto. Mas no creio que isso mude a questo. A rebelio de 
Ado e Prometeu, nos mitos, no era contra autoridades totalmente ineptas, mas expressava metas positivas 
no desenvolvimento da civilizao e conscincia humanas. 
Se quisermos um quadro bastante exato, na psicologia contempornea, de um moderno Jardim do den, 
bastar ler Walden Two, do Professor Skinner. Em Walden Two, existe liberdade de ansiedade, culpa e conflito; 
as pessoas so boas e sensatas sem tentar ou decidir s-lo; e, como Ado e Eva sob as rvores, as relaes 
pessoais desenrolam-se sob as condies mais favorveis, como escreve o Professor Skinner. Sob o ditador 
benvolo de Walden Two, as pessoas so felizes segundo se diz. Mas  uma felicidade ps-humana, animal, 
em que toda a capacidade de contestar e as insatisfaes construtivas se perderam. Embora eu discorde de 
Walden Two, no estou apreensivo com isso, pois tudo o que conheo sobre os seres humanos como 
terapeuta ou como estudioso da Histria humana me leva a ter confiana em que, se houvesse mais um 
captulo no final do livro, seria sobre uma retumbante revolta contra o ditador e o sistema; e se o ditador  
benvolo ou malvolo,  perfeitamente irrelevante. 
Se observarmos agora o mito de Ado, tal como os autores do Gnese o apresentaram, verificaremos que a sua 
verdade 6 muito diferente. No  por acaso que esse mito clssico, retratando o nascimento da conscincia 
humana,  um mito de revolta contra Deus. Sob a ditadura benevolente de Deus, Ado e Eva vivem no 
Jardim do den num estado de felicidade ingnua, pr-humana, num contentamento sem ansiedade, pudor ou 
conflito e tambm, como a criana nos primeiros meses de vida, sem conscincia moral ou individual. Ado e 
Eva percorrem ento passos paralelos aos que citei antes, neste captulo. Eles contestam a autoridade (a 
contestao projetada na serpente), experimentam a conscincia moral (comem da rvore do saber do Bem e 
do Mal). O preo que pagam pela sua revolta contra a autoridade de Deus  vergonha, culpa, ansiedade, 
conflito e a expulso do estado beatfico e infantil do den. Quando partiram, 
O Mundo estava todo diante deles, onde escolher 
Seu lugar de repouso, com a Providncia por seu guia. 
De mos dadas, com passes vacilantes e morosos, 
Atravs do den, tomaram seu caminho solitrio.5 
Mas que ganharam eles, ao dizerem adeus ao Paraso? Ganharam a diferenciao deles prprios como pessoas, 
os comeos da identidade, a possibilidade de paixo e de criatividade humana. E, em vez das dependncias 
ingnuas e irresponsveis da infncia, existia agora a possibilidade de amarem por escolha, de se relacionarem 
com os seus semelhantes porque queriam e, portanto, com responsabilidade. O mito de Ado, como disse 
Hegel,  uma queda para cima. De fato,  o surgimento da conscincia humana. 
Ao longo deste livro, estive enfatizando a avaliao como um ato. Isto implica um sistema aberto, em vez de 
fechado. Dissemos acima que s existe valor se algum se lhe entrega, o que enfatiza igualmente o valor como 
um ato,  no ato de avaliar que a conscincia e o comportamento se tornam unidos. Uma pessoa pode 
receber valores por hbito (mais exatamente, os hbitos mecnicos a que se d o nome de tradies, 
costumes) da igreja, ou do terapeuta, da escola, da Legio Americana ou qualquer outro grupo em sua 
cultura. Mas o ato de avaliar, em contraste, envolve um engajamento, um compromisso, por parte do indivduo, 
que vai alm da situao automtica. Isto, por seu turno, implica uma escolha e responsabilidade conscientes. 
A finalidade pressuposta ao longo deste livro, o aprofundamento e ampliao da conscincia, 6 tambm uma 
finalidade aberta e no fechada, que impregna e informa a sociedade aberta. 
IMPRESSO PELOS ESTABELECIMENTOS GRFICOS BORSOI 
5. A., INDSTRIA E COMRCIO,  RUA FRANCISCO MANua, 51/55, RIO DE JANEIRO, GB, EM OUTUBRO DE MIL 
NOvECENTOS E SETENTA E QUATRO PARA 
ZAHAR EDITORES 
